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Entrevista
 

[+]Adriano Ventura - Professor, Jornalista, Radialista e Vereador em Belo Horizonte

 

por Custódio Gonçalves

1) Adriano, missionário, jornalista, professor, político... fale-nos um pouco sobre sua caminhada na igreja?
Não consigo ver minha vida longe da Igreja. Na realidade, nasci num lar católico e tenho enorme alegria em lembrar da minha infância estruturada em uma casa simples, mas que a oração era parte importante de cada dia. Ainda criança me envolvi em projetos solidários. Lembro que tínhamos uma pastoral em uma região do meu bairro chamada de “Grota” e também na favela da “Ventosa”. Daí, aos 14 anos, coordenei o projeto Pró-horta, da Emater no meu bairro! Dá para acreditar? Somente fui lembrar disso quando fizemos o discernimento para entrar na vida política, em 2003.
Com 16 anos fui eleito coordenador da RCC pela Região Aparecida, na época, a maior região episcopal, com grupos de oração em quase todas as paróquias e aqueles problemas da década de 80: grupos com inclinação pentecostal, problemas com clero... Puxa! Quando olho para o passado, vejo que foi Deus quem me deu forças, afinal de contas eu era tão somente um menino no início da juventude.
Em 1984 fundamos o Grupo de Jovens Raízes, que depois virou Ministério de Evangelização e mais tarde, Comunidade Raízes de Jessé. Vocês imaginam que desde essa época atuamos no ministério de música e pregação, isso em BH, interior e até em outros estados.
Confesso que é esquisito olhar o tempo e ver que estamos naquele grupo dos carismáticos de quase 30 anos, afinal de contas, em junho deste ano, completei 27 anos de RCC! Ichi! Como o tempo passa!
Agora, o que Deus quer de nós? Hoje estamos na política, mas sem perder o foco da missão no ministério de pregação, fato que conjugo com minha carreira de professor de Teologia e Comunicação Social.

2) Como comunicador, radialista, jornalista e professor, como você vê a comunicação dentro da igreja Católica?
A comunicação está no meu DNA. Deus me fez assim. Imaginem que com 17 anos comecei a apresentar o programa “Questões de Fé” com Dom Werner. Ali foi minha escola. Mas o sonho veio de mais cedo: em 1985 apresentei o programa “Repartindo a Fé”, pela Rádio Mineira, ao lado da querida irmã, Graziela Cruz. Lembro que minha aprovação no vestibular para jornalismo foi o resultado de um discernimento em família e na comunidade, afinal, eu migrava entre veterinária, biologia ou comunicação. Dá para acreditar?
Tive a grata alegria de ajudar a fundar o primeiro Grupo de Oração Universitário na PUC Minas. A nossa Igreja vive um momento muito legal! Imaginem que temos a quarta rede de TV: Canção Nova e diversos veículos de comunicação expandindo, como a Rede Catedral, minha comunidade do coração – Gospa Mira e, é claro, sites como Nova Semente (que também é da minha família de coração!), Festa no Céu, Neves Católica... Vale lembrar que nossa exposição musical também é um fenômeno de comunicação. Vejam que legal! Quem diria que padres como Marcelo Rossi, Jonas, Fábio de Melo falariam tanto para o coração da moçada? Isso é motivo de muitos louvores a Deus!

3) Dos grêmios estudantis e movimentos sindicais para câmera de vereadores, quando e como surgiu essa vocação para a política?
Em 2003, quando fizemos o discernimento para apresentar o nome para a RCC, confesso que fiquei em dúvida, afinal, amigos como Dr. Lobão (coordenador da RCC em 1980), Davi Arão, Maria Tereza, Raízes de Jessé, confirmaram a missão, mas eu tive bastante medo. Talvez pela responsabilidade da política, talvez pelo medo da missão, medo dos problemas da política. Até então eu era um bom cabo eleitoral da RCC, mas daí para candidato, seria um absurdo para minha mente.
Foi muito importante o apoio e as orações de tanta gente da RCC, mas também tive o incentivo da Pastoral da Criança, afinal de contas, desde 1995 que eu estava trilhando o caminho da mobilização social, participando de formações e assim fui percebendo a importância de ter gente de fé, coragem e audácia nesse campo. A condição de jornalista também ajudou a formatar o coração de um Adriano sensível a situação da nossa gente. Enfim, Deus usou de muita gente, situações, como a faculdade, daí os grêmios, a Pastoral da Criança e, por fim, a RCC, que deu o impulso essencial.


4) Talvez nem todos saibam mas você tem uma “veia musical”, fale para nós sobre essa sua outra vertente, Afinal o Nova Semente conheceu você foi animando eventos e tocando contra-baixo.
É verdade! Sou apaixonado pela música católica. Na década de 80 animávamos os principais eventos da RCC na Arquidiocese. Naquela época eu tocava contra-baixo e cantava... dá para acreditar???? Cheguei a compor, cantar, rezar, enfim, que tempo bom! Até hoje arrepio ao ouvir e participar de shows! Creio firmemente que a música é um bom canal para atrair os jovens para Deus e peço a ele forçar para continuar amando esse ministério, embora não tenha mais competência para executar como músico, afinal, tem muita gente boa nesse campo. O que faço agora é tentar dar espaço aos jovens talentos com o nosso programa Fim de Semana, pela Gospa Mira.

5) Como você vê o casamento fé e política?
Fé e Política não são forcas dispares. Pelo contrário! A fé dá a pureza e a essência que falta à política e a política, por outro lado, dá à fé a graça de tornar-se prática no mundo dos homens. Entende? Nossa existência é um fenômeno social, portanto, político. Todas as decisões que tomamos têm impacto político e repercussões na vida de muita gente. Então, no campo do macro, ou seja, da política partidária, será que vamos deixar somente os filhos do “mundo” atuando? Temos que ter coragem de entrar nesse cenário para honrar o que acreditamos! Quanto mais os justos ficarem em silêncio, mais os ‘filhos das trevas’ vão ocupar o lugar da dignidade em detrimento ao sofrimento. Além do mais, entrar na política é uma forma de exercer a caridade cristã como nos ensina a Igreja.
Escrevo essas palavras ainda envolvido pela nova carta do Papa Bento XVI: “Caritas in Veritate’, ou seja, Caridade e Verdade. Na carta, o Papa conclama os católicos a vivenciar a Doutrina Social da Igreja através do amor, de ações precisas pelo bem da humanidade, da valorização do homem, em detrimento do capital, de vivencia do amor verdadeiro, do logos (palavra) de Deus... enfim, taí mais um argumento para o exercício da política libertadora, enraizada no evangelho. Esse convite é para todos nós!

6) Quais são as maiores dificuldades e obstáculos que você está enfrentando agora no seu mandato como vereador?
Não vou com rodeios: a política é um risco para qualquer um, não somente para os cristãos. Ela lida com algo que destrói e constrói o mundo simultaneamente: o poder! O poder seduz, transforma, edifica, mas também pode destruir e matar! Penso que todos nós que militamos na política partidária temos que ter em mente o mandato de cristo: somos tão somente servos em uma missão que pode ter inicio e fim! Talvez na dure a vida toda, portanto, não podemos nos iludir, fascinar com os holofotes, e as tentações inerentes ao cargo político.
Outro obstáculo: o próprio nome indica – política PARTIDÁRIA. Portanto, ela terá lado! Nem sempre esse lado será conveniente aos cristãos e também há momentos que esses partidários te colocam frente a frente no choque com a fé. E então? Para onde ir? Por isso, há que ter discernimento e acompanhamento da própria igreja.
Mais um obstáculo: o vício política da ajuda fácil. Sou vinculado a um partido que é contra o nepotismo, no entanto, até tornar-se proibido o que víamos é a promiscuidade da política o envolvimento familiar para obter benefícios. Se isso está controlado, por outro lado, continuam valendo a velha política ‘café com leite patriarcal’. Quer exemplo? Quantas comunidades, paróquias, grupos de jovens, movimentos sociais, eclesiais, não dão conta de pensar em eventos sem recorrer aos políticos??? Gente, não há dinheiro para isso! Estamos confundindo o papel dos vocacionados à política! Eles têm que legislar, fiscalizar e apresentar bons projetos e serem capazes de nos mostrar e nos, de cobrarmos transparência, verdade, presença e não somente dinheiro! Isso realmente me angustia! Quantas vezes, nesses seus meses, recebi visitas de amigos pedindo ajuda para eventos. E quando vamos dizer que não há verbas para isso e logo vamos mostrando nossa atuação, somos obrigados a ouvir que se não vamos ajudar, outros vão. Sabe o que isso gera? Um mercado paralelo da fé e da atuação parlamentar!
Temos que encontrar um meio termo. Caso contrário vamos criar gerações e gerações que pensam que o político existe para resolver os problemas do cidadão ou do grupo dele! Não! A atuação é pública e, portanto o resultado deve ser coletivo. A Arquidiocese de BH, desde 2005, tem insistido na formação política dos padres, leigos e leigas, mostrando a importância da política e a importância de os eleitores atuarem elegendo, cobrando atuação precisa no campo da política e não interesseira, como temos observado em diversas instâncias.


7) Como não se corromper?
A própria união fé e política é um antídoto à corrupção, se for levada com seriedade. Um dos pontos que a fé argumento para a política é a necessidade de transparência de ações, criação de Conselhos de Mandato, participação social e eclesial (coisa que nossos políticos se esquecem - por trás do trabalho político, que é muito, acontece uma acomodação da participação eclesial e comunitária dos mandatários).
Uma das boas ferramentas para a luta contra a corrupção é estudar a Doutrina Social da Igreja. Lembro que quando fui fazer a pós-graduação em Fé e Política pela CNBB fui tomando de assalto: até então eu achava que sabia o que era política!Lá, meus conceitos foram jogados por terra e pude compreende que quem é chamado para a política tem uma vocação ao sofrimento, ao coletivo, à partilhar e abertura social. Sem isso, não há político que resista aos convites avassaladores do mercado dos lobistas, que existem em todas as instancias. Recentemente vimos isso em BH. Diante da possível instalação de uma grande indústria de queima de resíduos hospitalares em uma região de BH, pude, claramente perceber a sedução do capital. Deu para sentir na falta de apoio dos colegas e as ferinas críticas que recebemos quando entramos na luta contra a instalação dessa empresa. Graças a Deus essa foi uma história vitoriosa: surpreendentemente o povo ganhou, em detrimento ao capital!

8) Você e apenas outros 4 vereadores estão adotando o sistema de transparência para os gastos das verbas de gabinete, fale sobre a importância disso.
A transparência foi bandeira nossa de campanha. Desenvolvemos isso na defesa do controle social. A população tem que encontrar formas de acompanhar seus políticos e controlar as ações do executivo e legislativo. Afinal, eles são nossos representantes. Tenho enorme satisfação em ter sido o primeiro a colocar a prestação de contas na internet. Depois vieram outros parlamentares. Em nosso site o cidadão acompanha nossas ações e pode acompanhar até mesmo nossos gastos com a apresentação das notas fiscais! Assim, se algum quiser, basta conferir CNPJ para ver se as empresas fornecedoras do mandato são idôneas, tem lastro legal. Lá também colocamos o contra-cheque do vereador! Achei muito melhor, assim podemos desmistificar a sina de que político tem muito dinheiro, pode fazer o que quiser. Com essa transparência, não somente o cidadão terá confiança com o mandato como também nós nos enquadramos num processo que limita o risco da corrupção, que quer seduzir a todos, inclusive a nós, cristãos.
O desafio agora é também levar essa transparência para eventos e situações que permitam à população conferir a atuação do mandato. Estamos realizando plenárias e elaborando material de comunicação que pode proporcionar a aproximação do vereador com a população. Algumas paróquias têm realizado eventos de prestação de contas. Isso é legal, pois a cada seis meses somos obrigados a voltar onde nos apresentaram como candidatos para ouvir, partilhar e até mesmo acolher as críticas. Daí saem boas idéias!
Nessa mesma linha o gabinete tem aprofundado em cursos, seminários buscando melhor qualidade no atendimento, afinal, somos ‘empregados do povo’e temos que dar resposta à altura. Quer um exemplo? Diariamente recebemos diversos currículos. Já estamos com mais de 500! Como dar respostas a isso? Treinamos um dos assessores para fazer a interface com as agencias de emprego e ONGs e mandamos retorno para os solicitantes. Temos certeza de que não vamos conseguir resolver esses problemas, mas pelo menos quem solicitou desde já pode perceber que estamos buscando resposta positivas, mesmo que elas não concretizem. Ou seja, a pior dor que qualquer pessoa é a falta de respeito, a falta de respostas.
Por fim, transparência só será autentica se o mandatário estiver presente. Nessa linha, tenho mantido a agenda de pregações, participação em eventos da Arquidiocese. Não é fácil, mas esse contato areja nossa cabeça e nos faz sentir abraçados, jogando fora a sensação de abandono diante das trincheiras de batalha.

Nosso Agradecimento a assessora de comunicação Josiane Nascimento.

 
 
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